“Nunca deixei e nem deixo de fazer nada por conta do Evangelho. Eu tenho uma vida normal, como toda criança: jogo bola, vou à escola [ele está no sexto ano do Ensino Fundamental, na escola particular Santa Mônica, no Rio de Janeiro], convivo com amigos (…). Faço tudo o que as demais crianças fazem, mas com responsabilidade, pois tenho um compromisso com Deus. Eu sabia qual era a minha missão. Deus tinha uma promessa para mim. Tive certeza da minha vocação aos cinco anos, quando estava louvando em uma igreja do Méier e Deus falava comigo sobre a cura”. Conta Matheus, afirmando nunca ter sido pressionado a caminhar na vida religiosa e continua falando que muitas vezes sofre preconceito por sua escolha. “Hoje, 70% dos meninos querem ser jogadores de futebol e sinto que sou discriminado por pregar a Palavra, pelo fato de correr atrás da Bíblia. Eles não gostam, encarnam em mim. Não sou um garoto admirado”, conta ele. Matheus tem 30 DVDs com louvores e cantos gravados, à venda em seu site. E não só tem as funções de pastor, cantor e estudante, como uma agenda de viagens rotineiras em sua vida.
Ana Carolina (17) foi uma das primeiras crianças a introduzir o Brasil nesta novidade (na época) de pregadores mirins. Aos quatro aninhos de idade começou a pregar e aos sete teve um vídeo em que aparecia pregando publicado no Youtube, o qual virou ‘funnk’ e teve recorde de audiência batido – com 2 milhões de visualizações da postagem original. A história da jovem é bem parecida com Matheus, aos três anos ela teve uma inflamação que afetou seu intestino e garganta, ocasionando a uma internação durante dez dias, sendo desenganada pelos médicos, segundo seu o pai, o pastor Ezequiel Dias, que conta: “Ela faleceu em meus braços, até que orei a Deus e a Carolina voltou à vida. E voltou servindo a esse Deu (…) Mesmo falando errado, pois era criança, pregava a Palavra”.
A “Menina Pastora”, como se tornou conhecia, Ana Carolina freqüenta a igreja até hoje e continua pregando a centenas de fiéis, praticamente todos os dias, participando também de congressos e eventos por todo o território Brasileiro. Mas não pense você que ela vive só a pregar em igrejas, a jovem cursa Física na Universidade Rural do Rio de Janeiro. O pai da menina que cuida de todos os interesses da filha, afirma que não existe nenhuma pressão familiar para que ela desempenhe o papel de “pastora” e ressalta também que isso nunca foi problema para ela, conciliar suas funções na igreja com os estudos. Carolina já foi a Europa para pregar e nesses dias tem coordenado sua vida particular com inúmeras funções na igreja.
“Ela (Ana Carolina) teve uma infância tranquila, brincou, viajou o mundo. Conheceu lugares como a Europa, esquiou, fez coisas que eu não teria condições financeiras de bancar. E tudo isso por meio da pregação da Palavra. É uma sensação indescritível ser pai de uma missionária. Creio que milagres não se explicam e não se justificam, e a minha filha é um milagre de Deus”, diz ele Ezequiel.
Ainda que os dois sejam vistos como pedras preciosas à igreja e que quando estão a frente do povo, falando sobre as coisas de Deus sejam despertem orgulho em suas famílias, a rotina deles gera uma preocupação aos profissionais da área de psicologia, ainda que o fato de mobilizar a multidões sejam encarados como uma vocação e não como obrigação, pelo fato da responsabilidade despertada precocemente.
Maria Vita Umbelino, pastora há cinco anos na Assembléia de Deus e também teóloga, não concorda com o fato de crianças pregando. “No meu Ministério eu não tenho criança pregando, sou contra. Esse período é de aproveitar as brincadeiras típicas da idade e esperar pelo amadurecimento”, diz ela. Para a pastora Maria a escola bíblica que a igreja oferece é “mais do que suficiente para o primeiro contato dos jovens”.
O olhar da psicóloga especializada em terapia familiar, Aldvan Figueiredo, entra em concordância com o da pastora. Ela explica que é normal entre a idade de cinco a sete anos que seja despertado o contato das crianças com a espiritualidade. “Os pais não precisam se preocupar, desde que o interesse ocorra naturalmente. Após esse período, as crianças tendem a se desligar desses assuntos.” Explica ela, mas complementa seu raciocínio explicando que o perigo está quando crianças são obrigadas a ingressar em rotinas religiosas cedo demais. “A atitude pode causar danos emocionais e afastar de vez essas crianças da religião, tornando-se um trauma na vida adulta.”
A professora de psicologia da PUC-Campinas, Rita Kather, tem uma visão mais, severa quanto ao assunto. Para ela seja artística ou religiosa, uma escolha precoce pode vir a acarretar dificuldades no interesse da criança em outras áreas. “Uma vez que essa criança começa a desempenhar bem o papel, raramente sua vida tomará outro rumo. As crianças não devem ser incentivadas a tomar decisões logo nos primeiros anos de vida. Nesta idade, nem as habilidades ainda foram totalmente desenvolvidas. A religiosidade é importante, mas esse contato da criança com o mundo religioso precisa ser suave. É nobre cultivar a religião para um mundo de paz, mas isso deve ser natural”. Defende a professora, que diz complementa falando que é raro uma criança demonstrar-e insatisfeita quando está cumprindo um papel que agrade a seus pais.
Fonte: Gospel+
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